terça-feira, 28 de abril de 2009
sábado, 23 de agosto de 2008
Agnósticos têm pés de barro...
“Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1 Co 13:12).
Seu Téo não acreditava em Deus, e gostava de falar sobre isso. Como prova de sua convicção repetia invariavelmente: alguém já viu Deus, ouviu sua voz, tocou nele?
Alguns teistas replicavam que a lua, as estrelas, o mar,o sol, a chuva,os dias que se sucedem, o universo, o desabrochar de uma flor,são provas da existência de Deus.
Seu Téo contra argumentava, eu acredito na lua, nas estrelas, no mar, na chuva porque os vejo, ou toco, ou sinto seu cheiro...,e o universo nasceu de uma grande explosão, os dias se sucedem por causa do movimento da terra, o próprio homem é resultado da evolução das especies.Eu em outras eras fui macaco, um tal de Darwin explica isso muito bem...
Todas as manhãs ocorriam tais embates, no local de trabalho de seu Téo - uma sapataria, onde ele confeccionava alpargatas e botinas. Diga-se de passagem, que sua produtividade não era abalada pelos debates, de cabeça baixa enquanto cortava, costura suas peças, ou batia pregos, Seu Téo discorria mansamente. E que fique claro, Seu Téo era muito educado e inteligente, tinha estudado em colégio de padres. Na sua modesta casa tinha num canto da sala uma estante com livros amarelecidos pelo tempo, era neles que seu Téo buscava apoio para sua descrença.
Aquele local de trabalho e de debates era frequentado por três grandes amigos de seu Téo: um crente fervoroso, um espirita, e um terceiro que não sabemos, ou identificamos, seu credo, creio que era um cético, pois apenas ria-se com o canto dos lábios, ora meneava a cabeça em sinal de aprovação ou de desaprovação.
Eu tinha , então nove anos, e vi Seu Téo sendo amparado por seus amigos, e se lamuriando pelo tiro de raspão que levara no pé.
Fiquei dias e dias a pensar no fato. Se ele acreditasse em Deus, será que desacreditaria ao levar um tiro de raspão? E, se em vez de ser no pé, fosse em um orgão vital, será que antes de dar o ultimo suspiro ele diria: Ó Deus...; que nova religião era essa que ele agora dizia ser seguidor? Agnóstico, será alguém que acredita em Deus, mas não gosta de padres?
Trinta anos depois, vi um candidato a Presidente da República perder as eleições, respondeu em rede nacional, quando perguntado se acreditava em Deus, que era Agnóstico. Ele mesmo deu-se um tiro no pé...
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Acorda Rosa
Passarinho que nada deve, ora essa, por acaso eu devo algo, ou a alguem?. Talvez, deva a comida que comi, por todos esses anos, e a passagem que pagaram para ser trazida do interior de São Paulo , para aquela cidade do interior do Nordeste. Ora bolas, bem podiam ter me deixado em um orfanato, lá mesmo em São Paulo.As roupas e calçados que usei em toda minha infância e adolescência foram as usadas e herdadas de minhas primas.
Capítulo II
- Quem matou?
Abro os olhos e fito a estrada reta, parece infindável, ao longe o infinito, estrada e céu parecem se confundirem.
Capitulo III
Chego ao meu destino: a cidade de São Francisco tinha o milagre do emprego, estavam sendo anunciadas em revistas nacionais a construção de uma hidrelétricas. Procuro uma pensão barata.Que coincidência tinha muitas moças hospedadas, vinham de outros estados da federação e até de cidades vizinhas. Todas buscavam o cargo de professora, a empresa pagava bem.
Nos encontrávamos no café da manhã e conversávamos sobre nossas expectativas, e sobre nós mesmas. Eu principalmente, chamava a atenção por ser muito nova, e ainda parecer mais nova do que realmente era, ou talvez pelo semblante reflexivo
- Tens quantos anos ?
- 18 anos.
- Vens de onde?
Rosana, estremece, não quer mentir, construir sua vida sobre mentiras, mas também não suporta mais o olhar de piedade que é lançado sobre si desde a infância . Não quer e não precisa contar que é filha de um uroxida. As pessoas não precisam saber que teve um casamento relâmpago - casou-se enviuvou no mesmo ano...
- Hã, eu vim de Recife... (não menti, omiti a cidadezinha do interior).
Passei no concurso, a empresa ofereceu alojamento, o salário era muito bom mesmo, e ainda tinha participação nos lucros.
- A vida corria tranqüilamente, ensinava de manhã, almoçava no alojamento, fazia a sesta após o almoço, preparava a aula do dia seguinte. Escrevia um pouco no meu diário.
Contou para sua colega Zuleika um pouco sobre si: Meus pais morreram em um acidente automobilístico, quando tinha seis anos, não tenho irmãos, fui criada por minhas tias, cada seis meses mudava de casa, um semestre na casa de Tia Sônia, um semestre na casa de tia Beth...agora que completara dezoito anos estava conseguindo minha independência ..., mas não conta às outras, não gosto de falar do assunto.... Eu sabia que Zuleika não manteria segredo, por isso contei o que me convinha. Acertei. Dia seguinte na hora do café percebi olhares piedosos, prescrutadores, interrogativos, céticos, ou compungidos, nenhum de indiferença... Até a hoteleira me serviu uma fatia extra de bolo de chocolate!
Ainda bem que só contei o que de fato queria que as outras soubessem.

